Hospitais privados perderam 15,93% de tudo o que tinham direito a receber das operadoras de saúde em 2025, segundo o Observatório Anahp patamar que se manteve praticamente estável em relação ao ano anterior, mas que já supera em quase cinco vezes a média histórica do setor, que girava entre 3% e 5% do faturamento bruto.
O mecanismo por trás dessa perda chama-se glosa: o hospital atende o paciente, arca com os custos de equipe, materiais e estrutura, envia a fatura à operadora e recebe, em troca, a recusa total ou parcial do pagamento.
O paradoxo é que a resposta do setor a esse problema costuma mirar o lado errado. Enquanto boa parte dos investimentos em saúde se concentra em tecnologias de ponta Inteligência Artificial, telemedicina, prontuários eletrônicos cada vez mais sofisticados, a origem da maior parte das perdas financeiras é bem mais simples do que parece. Estudos do setor mostram que entre 68% e 78% das glosas têm origem administrativa: erros de cadastro, códigos incorretos, documentação incompleta, cobranças duplicadas. Não é a tecnologia que falta. É o dado que entra errado na ponta.
Para a administradora Alice Norberto Saraiva, especialista em governança de dados e gestão de processos em saúde, esse descompasso é o verdadeiro ponto cego do setor. “Se os dados de entrada forem falhos, a tecnologia apenas reproduz e acelera decisões incorretas”, avalia. Com oito anos de carreira administrativa, quatro deles dedicados exclusivamente a processos críticos do setor parte na Unimed-BH, uma das maiores cooperativas médicas do país, ela viu de perto como um erro de digitação no cadastro de um paciente pode se transformar, meses depois, em receita perdida.
Foi na Unimed-BH que ela testou essa tese na prática. Ao assumir a validação de uma extensa carteira de beneficiários, encontrou um cenário onde menos de 30% dos contratos eram processados dentro do prazo. A reestruturação dos fluxos de trabalho, com controles de qualidade mais rígidos, reduziu o retrabalho por inconsistências cadastrais em 70% e eliminou 90% das tarefas manuais prova de que o problema, por ser administrativo, também tem solução administrativa.
“A qualidade dos dados deixou de ser uma questão de compliance para se tornar o principal diferencial competitivo das operadoras e hospitais”, resume a especialista.
O impacto no caixa dos hospitais vai além do percentual contestado na primeira análise. Mesmo descontando os valores recuperados por recurso, o Observatório Anahp 2026 registrou glosa aceita contábil — a perda definitiva, após toda a contestação — de 1,72% da receita bruta de convênios em 2025. E o prazo médio para o hospital receber esses valores também cresceu: o DSO (tempo entre o atendimento e o efetivo recebimento) chegou a 77,35 dias no mesmo período, o que pressiona o fluxo de caixa das instituições e compromete a previsibilidade orçamentária.
A metodologia de consultoria desenvolvida por Alice, construída sobre frameworks como Lean Management, Six Sigma e Healthcare Data Governance, propõe um redesenho completo do ciclo de receita — do diagnóstico organizacional à implantação de governança de dados robusta. Na prática, isso significa deslocar o investimento: menos foco em corrigir a glosa depois que ela acontece, mais foco em garantir que o dado nasça correto. Para a especialista, essa mudança de prioridade é o que vai definir, nos próximos anos, quais instituições conseguem transformar eficiência administrativa em vantagem competitiva real — e quais seguirão pagando, todo mês, pela mesma falha evitável.
Sobre Alice Norberto Saraiva
Administradora de empresas especializada em eficiência operacional, governança de dados e gestão de processos no setor de saúde. Soma experiência no mercado financeiro (Banco Mercantil) e na saúde suplementar (Unimed-BH), com metodologias voltadas à redução de falhas administrativas, mitigação de glosas e otimização do ciclo de receita.